sábado, 14 de outubro de 2017

Fundamentação Parte Final.

 “(...) a cor dependerá do contexto, ou ás vezes, de uma pequena variação na sua cromaticidade para adquirir a conotação adequada.” (Luciano Guimarães, 2009. pag.107) Seus ocupantes foram afetados de maneiras distintas, especificamente à visão, e ao modo de enxergar a cor, ou não enxergá-la. Oliver por representar a consciência da humanidade, teve uma abrangência maior nesse quesito, a ausência total da visão. Caracterizando-os com os significados que Kandinsky apresenta as cores, o pintor converteu-se na representação da cor branca, dessa forma já se subentende qual sua responsabilidade, sua finalidade e o papel que exercerá em toda a história.



Entendendo-se a conotação oposta a de Kandinsky que empregará para seguir em frente, e também do papel que está inserido, Oliver terá um comportamento resultante de sua perda, que foi significativamente abrangente, sua posição na história se torna algo entristecido, desestimulado, tudo que nega o otimismo, o positivo, e caracteriza-se como falta, ausência, e que está na simbologia da cor preta.
Essas representações fundamentaram-se na união das várias definições dos dois, na visão e nas afirmações segundo Kandinsky.

O equilíbrio perfeito entre o branco e o preto produz, cinza perfeito, que nasceu de dois silêncios e é o silêncio resultante da resistência invencível, tanto quanto o da falta de resistência. (W. Kandinsky. 1996. pág.99)
Todo o simbolismo da cor branca, e de seus usos rituais, decorre dessa observação da natureza: esses dois instantes, vazios, suspensos entre a ausência e a presença, entre a lua e o sol... (...) Por isso também é visto como cor iniciadora, cor da revelação, cor dos ritos de passagem. O simbolismo do branco oscila entre inicio e fim, nascimento e morte. ( Lilian Ried Miller Barros, apud: W. Kandinsky,2008. pag.200)
Branco – silêncio tenso. Preto – fechado em si mesmo. (...) Branco – resistência ativa. Preto – Buraco sem fundo, sem saída, a morte, silêncio. Preto – resistência passiva, abandono. (W.Kandinsky.1996. pag.45)
Branco – Parede sem fim, todas as possibilidades, a mais alta sonoridade, nascimento, silêncio. Na arte, não tratamos das propriedades físicas das cores, mas das tensões,... São valores internos. Interiormente o branco é quente, o preto é frio. Van Gogh colocou essa questão. A intuição desses valores leva à avaliação abstrata das cores. (W. Kandinsky, 1996. pág. 48/49)
É fácil uma harmonização por adição de branco, porque todas as cores aceitam o branco sem que sua tensão inicial se modifique profundamente. (W. Kandinsky, 1996. pág.99)


Ainda enxergando um mundo de tons acinzentados, situação que paralelamente se assemelha a um dos pacientes de Oliver numa história real, do qual graças a um acidente de automóvel, sofreu de daltonismo total e raro, e o mesmo é relatado em seu livro “Um antropólogo em Marte”(1995)  onde ainda estão mais seis casos de histórias paradoxais, onde seus pacientes apresentam várias doenças neurológicas acompanhadas e registradas por Oliver no livro.
Esses pacientes e suas histórias foram necessários para amarrar coerentemente o foco do roteiro e foram estrategicamente inseridas na segunda parte da aventura, sendo que cada um terá sua devida justificação para auxiliar na missão de Kandinsky, relembrando que toda e qualquer condição seja negativa ou positiva, carrega em si outro lado, que tenha uma exceção, algo que mesmo em menor escala, e visto como uma resultante oposta do que está na superfície, em sumo, toda doença tem seu lado aproveitável, porque de certa forma, ela nos apresenta outra perspectiva de como se vê o mundo, o antes e o depois em perspectivas diferentes o são e o doente, adjetivos que podem existir num único individuo, assim como a arte comporta situações que remetem a dubiedade, e está aberta a várias interpretações tudo depende da referência e do ponto de vista do espectador, a doença também tem em si esse pequeno paralelo invariavelmente destacando ainda mais a diversidade de adaptação humana, e traçando um paralelo com a própria capacidade da arte. “O caráter gratuito da arte conduz ao movimento oposto, á claridade, a integração na vida, ao “funcional. “Finalidade: ressaltar o centro, equilibrar o alto e o baixo, empregar o preto e o branco como acentos, o cinza como transição.” (W. Kandinsky, 1996. pág.117) O tom acinzentado está presente graficamente nas obras do artista plástico como plano de fundo e como construção da realidade em que vivem. A partir do ponto em que se perdem as cores os tons acinzentados se destacam e servem exatamente como o trajeto que o personagem “Branco” faz para encontrar o personagem “Preto” na história, dessa capacidade representativa é que Kandinsky comenta em seguida.

Uma obra de arte possui uma capacidade de agregar referências e conseqüentemente despertar sentimentos dos mais variados, precisamente no interior do ser humano. (W. Kandinsky, 1996. Pág.110)


O interior da coletividade humana é basicamente onde será a missão do artista plástico, relacionada aparentemente com a recuperação das cores para que elas voltem a integrar o universo e serem usadas corretamente e positivamente a favor do estimulo, da imaginação humana. Mas seu papel vai além de simples arrecadamento e organização, afinal no contexto apresentado pelo mundo do abstrato, as cores são partes que simbolizam a consciência e tudo que dela podem derivar, influenciando todo o comportamento coletivo do homem, com o meio em que vive sua própria realidade. “(...) Aquilo que se leva e se faz ocorrer na consciência é a própria existência. Esta é a função insubstituível da arte”. (Lilian Ried Miller Barros apud: Argan,2008. Pág.160)

  Em posse dessa conveniência, ele reutilizará sua representabilidade não só convencionalmente, mas podendo agregar a capacidade de englobar todo o contexto incluindo e ratificando a importância da própria escola fundadora do design na história, a Bauhuas, tudo isso em função da realização da futura obra que será criada a partir desse ponto, uma responsabilidade que o próprio pintor deverá tomar para si durante toda a concepção da mesma, e ainda levar consigo e guardada as devidas proporções os valores da antiga escola fundadora do design gráfico. “O objetivo final – ainda que distante – da Bauhaus é a obra de arte unificada”.( J. Abbott Miller apud:Gropius, 2008.pag.8)

Kandinsky fornece em seu primeiro livro – Do Espiritual na arte (1912) – explicações e fundamentos teóricos para a nova arte não figurativa. (...) O tom messiânico do seu livro e a natureza radical de suas pinturas contribuíram para a formulação de que Kandinsky era nada menos que um representante de um novo idealismo. (Lilian Ried Miller Barros, 2008. pag.159)


                           “A arte fortalece as forças, e as capacidades internas.” (W. Kandinsky, 1996. pág.111.) Em outras palavras, seu papel nessa realidade enaltece suas qualidades e corrobora na funcionalidade da direção de suas ações como um todo. Quando ele recuperar todas as cores, terá condições na etapa final de alimentar sua imaginação com o que recuperou e exercer sua atividade de pintor criando uma obra onde possa enaltecer o espírito humano, tão corrompido pelas ações impensadas do ser humano durante muito tempo e, uma obra que desperte os verdadeiros valores da vida humana, e inicie um novo rumo para que uma reflexão coletiva possa fazer surgir uma nova consciência.


Todas essas influências, sensoriais e místicas, reforçavam a vontade de Kandinsky de associar as linguagens das diferentes artes, a fim de libertar o espírito humano para um renascimento social. (Lilian Ried Miller Barros, 2008. pag.166)
Para Kandinsky, a obra de arte autêntica é aquela em que o artista consegue expressar sua necessidade interior usando como instrumento a harmonização entre as cores e formas. Uma vez atingida essa meta, a composição estabelece uma verdadeira ressonância com a alma humana. (Lilian Ried Miller Barros 2008, pag.207)
Mais tarde, a abstração acaba unindo-se a idéia do expressionismo. Segundo Rose-Carol, essa união ocorreu em 1912, quando o antinaturalismo se associou a idéia de antipositivismo e viu-se na arte abstrata a criação da visão de um mundo melhor, revelando-se símbolo visual do socialismo utópico. (Lilian Ried Miller Barros, 2008. pág.158)


Após as definições da natureza da mensagem e de quais caminhos o roteiro iria trilhar, o projeto precisava da geração das primeiras bases de imagens onde seria contada a história graficamente.

 Antes de ilustrar as páginas da história, o pesquisador manteve a aprendizagem básica lecionada por qualquer meio de ilustração, nos ensinamentos para a construção de qualquer tipo de ilustração, o processo inicial que é sempre constituído de uma base, uma espécie de esqueleto constituído de rabiscos, traços, linhas e inadvertidamente se baseando em formas geométricas para em seguida ser, lapidada e finalmente arte-finalizada.

Essa etapa mostrou-se bastante oportuna quando observando cada situação em que se encontrava o personagem, me permitiu inserir as simbologias existentes nas formas geométricas, já que ia utilizá-las para desenvolver as ilustrações, além da composição das páginas, pude enxergar o enorme potencial de valorização das teorias da Bauhaus e de Kandinsky, se acerca de seus conceitos sobre as formas primárias, as usasse em todas as etapas e elementos para o desenvolvimento gráfico do projeto.

Usando o potencial representativo reconhecido pelas tradicionais áreas do design, e incluindo ainda a psicologia das formas nos vários momentos de cada passagem da história encontradas pelos personagens, ainda com o acréscimo da psicologia das cores em várias situações encontradas na mesma e que norteiam todo o roteiro, só reforça ainda mais as bases acadêmicas fundamentadas pelo design gráfico.

A repetição desse trio de formas básicas e cores primárias na obra de professores e estudantes da Bauhaus evidenciam o interesse da escola na abstração e seu foco nos aspectos da visualidade que poderiam ser descritos como elementares, irredutíveis, essenciais, fundadores e originais. (J.Abbott Miller, 2008. pág.8)
Para Klee, Kandinsky e Itten, as três formas serviam como uma escrita com a qual a pré-história do visível podia ser analisada, teorizada e representada. ( J. Abbott Miller, 2008. pág.25)


Especificamente para Kandinsky, as três formas básicas se apresentavam em toda a forma de concepção que origina qualquer projeto gráfico. Para ele há uma ligação inerente entre as três, uma correlação que também constitui o espaço, o universo, está intrinsecamente ligado, ordenado e favorável a existência dessas formas, são elas que se inserem em toda e qualquer objeto gráfico, e são delas as derivações para as compostas.


Em 1923 Kandinsky propôs estabelecer uma correspondência universal entre as três formas elementares e as três cores primárias: o triângulo, dinâmico, seria inerentemente amarelo, o quadrado, estático, intrinsecamente vermelho, e o círculo, com sua serenidade, naturalmente azul. Hoje a equação perdeu seu apelo universal e passou a funcionar como um signo flutuante capaz de assumir diversos significados – inclusive o de evocar a própria memória da Bauhaus.( Ellen Lupton e J. Abbott Miller, 2008. pag.6)


Antes de se chegar a essas três formas e à definição das mesmas, para tracejar qualquer linha que desenvolvesse outros objetos, e constituísse uma construção de cunho geográfico, existe um item, um elemento que representa a ação inicial, o momento que sintetiza a origem incluindo as três formas básicas, uma mini circunferência preenchida, nomeado como ponto, também citado como o marco zero, onde tudo começa, onde a composição das formas é delineada e conseqüentemente os elementos que constituem a dimensão do objeto, assim como o próprio Kandinsky afirma.

O Ponto geométrico – interseção invisível de três planos = 0 = (zero) = (começo – origem).O ponto místico = segredo maçônico, isto é, o grande no infinitesimal = divindade= todo poderoso no menor de todos os símbolos = elemento original, de que decorrem todos os outros elementos.Três propriedades que o definem e que são variáveis: a dimensão,a forma e a cor.(W.Kandinsky, 1996. pág.61)

O ponto está representado tanto no inicio da aventura quanto no final, seja simbolicamente ou literalmente, e ainda assim estaria no recomeço para a segunda parte, em sumo, ele norteia todo o projeto, a circunstância de seu deslocamento também, conhecida como linha, mas em um momento decisivo ele assumiu sua real e específica alcunha de inicio, de recomeço, o zero, onde sua capacidade é demonstrada em favor do beneficio da missão de Kandinsky, guiando-o até onde ele precisa ir como uma bússola, Oliver indica e ele surge e devidamente vibrado abre o caminho ao qual surge uma “fenda” uma espécie de porta, e a partir daí a entrada para o desconhecido é mostrada, as possibilidades estão agora lhe apresentando um trajeto, uma linha que só o artista pode seguir, no caso, ouvir sua frequência até a outra extremidade enquanto perpassa por todas as sete cores, até o outro ponto, então o começo da aventura tem oficialmente inicio, e tudo isso com o auxilio de itens que o próprio pintor sempre usou e frisou em suas obras e reconhecendo-os como indispensáveis, e de acordo com algumas de suas citações:

(...) Qualquer ponto tem grande poder de atração visual ao olho, exista ele naturalmente ou tenha sido colocado pelo homem em resposta a um objetivo qualquer. ( Donis A. Dondis apud:W. Kandinsky, 2003.pág.53)
(...) Esse interesse no “ponto zero”, no primeiro momento é evidente no livro Ponto e linha sobre plano, de Wassily Kandinsky: ”Precisamos desde já distinguir os elementos básicos de outros, ou seja, elementos sem os quais uma obra [...] não poderia sequer existir.”
Nas artes visuais, a linha tem, por sua própria natureza, uma enorme energia. Nunca é estática; é o elemento visual inquieto e inquiridor do esboço. (...) Contudo, apesar de sua flexibilidade e liberdade, a linha não é vaga:  é decisiva, tem propósito e direção, vai para algum lugar,faz algo de definitivo.(...)A linha é o meio indispensável para tornar visível o que ainda não pode ser visto, por existir apenas na imaginação.”( Donis A. Dondis ,2003.pág.56)


Esse possível elo na imaginação da mente humana entre as formas e as cores possibilita ainda mais conceituações sobre ambos e ainda relacionando com o ritmo e, por conseguinte a música, que mesmo desprovidos em menor e maior grau das faculdades visuais se torna a única alternativa que resta para os personagens buscarem soluções, se utilizando inclusive através de seus significados, tudo interligando numa resultante favorável aos personagens e também ao ritmo da história.

Portanto dentro desse acontecimento a teoria de Ferdinand de Saussure propõe exatamente a relação dos sons e dos materiais.


(...) De acordo com a teoria do signo verbal proposta pelo lingüista Ferdinand de Saussure na virada do século XX, a linguagem consiste em dois planos distintos, porém inseparáveis: sons e conceitos, ou significantes e significados. Para que a massa caótica e indiferenciada dos sons potenciais possa se tornar o material fonético da linguagem, ela deve articular-se em unidades distintas e repetíveis; da mesma forma, o plano do pensamento precisa ser decomposto em conceitos distintos antes de  poder ligar-se a sons materiais.(...)( Ellen lupton e J.Abbott Miller, 2008. pág.31)


Na segunda parte da aventura quando Kandinsky estiver em cada cor, individualmente e com seu respectivo elemento impar, ele será impulsionado a se privar da visão e depender  somente do som tanto da voz de Oliver que será sua consciência, quanto do produzido pela  própria cor, e conhecendo historicamente sua experiência com a sinestesia, numa ópera de Richard Wagner (1813 – 1883),onde ele diz ter visto cores durante a apresentação, adequou-se funcionalmente no processo com os sinestetas.

Os pacientes sinestésicos, deverão ser encontrados para a partir daí juntos gerarem alguma sonoridade que faça o sinesteta lembrar-se de algo bom, algo que o faça recordar de memórias marcantes em sua vida. A freqüência precisa ser usada corretamente, em forma de música e sob os conselhos de Oliver, Kandinsky deverá implantar algo que estimule o despertar de sua visão, mesmo que só por um nível, para que juntos possam afetar toda a dimensão de uma determinada cor, e ele possa resgatá-la, afetando o que estava pondo todos os seres humanos dessa dimensão de certa maneira como escravos e invertendo para um som diferente do que estavam influenciando, e dessa forma possam gradativamente restabelecer o equilíbrio antes existente com a união de todas as cores. “(...) O equilíbrio é, então, a referência visual mais forte e firme do homem, sua base consciente e inconsciente para fazer avaliações visuais. (...)”(Donis A. Dondis, 2003.pág.32)

Esse equilíbrio inerente a todos os seres humanos também estará sendo exemplificado graficamente em alguns elementos das páginas da graphic Novel, e de acordo com Donis A. Dondis.

A palavra “gráfico” refere-se tanto à escrita quanto ao desenho – meios diferentes que usam ferramentas similares.Também refere-se a uma convenção utilizada pelas ciências – o gráfico - ,que representa uma lista numérica como uma linha continua desenhada em um espaço subdividido: o padrão formado pelo gráfico é percebido como uma Gestalt – uma forma ou imagem simples. (Donis A. Dondis,2003. pág.26)  


A gestalt está representada em várias fundamentações que decorrem durante toda narrativa visual, e essas formas se caracterizam implantadas coordenadamente no processo de organização visual, e sempre seguindo os parâmetros pré-estabelecidos e seguindo o contexto de cada página, além do direcionamento de cada diálogo dos personagens.


Preocupado com a representabilidade dos elementos compositivos em cada página, o pesquisador buscou utilizar a melhor maneira de favorecer a visão do leitor nas percepções gráficas das páginas. O projeto estrutura tudo sempre com o referencial da grade, gerada pelo módulo de cálculo, e sobre o eixo central das mesmas usadas matematicamente como base no espaço das formas geométricas, constituindo a geometrização necessária a qualquer projeto gráfico, para a disposição coerente e o equilíbrio dos elementos. “Assim, o constructo horizontal-vertical constitui a relação básica do homem com seu meio ambiente. Mas além do equilíbrio simples e estático (...) “( Donis A. Dondis, 2003 pág.32),Donis A.Dondis, ainda ratifica.
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