“(...) a cor dependerá do contexto, ou ás
vezes, de uma pequena variação na sua cromaticidade para adquirir a conotação
adequada.”
(Luciano Guimarães, 2009. pag.107) Seus
ocupantes foram afetados de maneiras distintas, especificamente à visão, e ao
modo de enxergar a cor, ou não enxergá-la. Oliver por representar a consciência
da humanidade, teve uma abrangência maior nesse quesito, a ausência total da
visão. Caracterizando-os com os significados que Kandinsky apresenta as cores,
o pintor converteu-se na representação da cor branca, dessa forma já se
subentende qual sua responsabilidade, sua finalidade e o papel que exercerá em
toda a história.

Entendendo-se
a conotação oposta a de Kandinsky que empregará para seguir em frente, e também
do papel que está inserido, Oliver terá um comportamento resultante de sua
perda, que foi significativamente abrangente, sua posição na história se torna
algo entristecido, desestimulado, tudo que nega o otimismo, o positivo, e
caracteriza-se como falta, ausência, e que está na simbologia da cor preta.
Essas
representações fundamentaram-se na união das várias definições dos dois, na
visão e nas afirmações segundo Kandinsky.
O
equilíbrio perfeito entre o branco e o preto produz, cinza perfeito, que nasceu
de dois silêncios e é o silêncio resultante da resistência invencível, tanto
quanto o da falta de resistência. (W. Kandinsky. 1996. pág.99)
Todo
o simbolismo da cor branca, e de seus usos rituais, decorre dessa observação da
natureza: esses dois instantes, vazios, suspensos entre a ausência e a
presença, entre a lua e o sol... (...) Por isso também é visto como cor
iniciadora, cor da revelação, cor dos ritos de passagem. O simbolismo do branco
oscila entre inicio e fim, nascimento e morte. ( Lilian Ried Miller Barros,
apud: W. Kandinsky,2008. pag.200)
Branco
– silêncio tenso. Preto – fechado em si mesmo. (...) Branco – resistência
ativa. Preto – Buraco sem fundo, sem saída, a morte, silêncio. Preto –
resistência passiva, abandono. (W.Kandinsky.1996. pag.45)
Branco
– Parede sem fim, todas as possibilidades, a mais alta sonoridade, nascimento,
silêncio. Na arte, não tratamos das propriedades físicas das cores, mas das
tensões,... São valores internos. Interiormente o branco é quente, o preto é
frio. Van Gogh colocou essa questão. A intuição desses valores leva à avaliação
abstrata das cores. (W. Kandinsky, 1996. pág. 48/49)
É
fácil uma harmonização por adição de branco, porque todas as cores aceitam o
branco sem que sua tensão inicial se modifique profundamente. (W. Kandinsky,
1996. pág.99)
Ainda
enxergando um mundo de tons acinzentados, situação que paralelamente se
assemelha a um dos pacientes de Oliver numa história real, do qual graças a um
acidente de automóvel, sofreu de daltonismo total e raro, e o mesmo é relatado
em seu livro “Um antropólogo em Marte”(1995)
onde ainda estão mais seis casos de histórias
paradoxais, onde seus pacientes apresentam várias doenças neurológicas acompanhadas
e registradas por Oliver no livro.
Esses
pacientes e suas histórias foram necessários para amarrar coerentemente o foco
do roteiro e foram estrategicamente inseridas na segunda parte da aventura,
sendo que cada um terá sua devida justificação para auxiliar na missão de
Kandinsky, relembrando que toda e qualquer condição seja negativa ou positiva,
carrega em si outro lado, que tenha uma exceção, algo que mesmo em menor
escala, e visto como uma resultante oposta do que está na superfície, em sumo,
toda doença tem seu lado aproveitável, porque de certa forma, ela nos apresenta
outra perspectiva de como se vê o mundo, o antes e o depois em perspectivas
diferentes o são e o doente, adjetivos que podem existir num único individuo,
assim como a arte comporta situações que remetem a dubiedade, e está aberta a
várias interpretações tudo depende da referência e do ponto de vista do
espectador, a doença também tem em si esse pequeno paralelo invariavelmente
destacando ainda mais a diversidade de adaptação humana, e traçando um paralelo
com a própria capacidade da arte. “O caráter gratuito da arte conduz ao
movimento oposto, á claridade, a integração na vida, ao “funcional. “Finalidade: ressaltar
o centro, equilibrar o alto e o baixo, empregar o preto e o branco como
acentos, o cinza como transição.” (W. Kandinsky, 1996. pág.117) O tom
acinzentado está presente graficamente nas obras do artista plástico como plano
de fundo e como construção da realidade em que vivem. A partir do ponto em que
se perdem as cores os tons acinzentados se destacam e servem exatamente como o
trajeto que o personagem “Branco” faz para encontrar o personagem “Preto” na
história, dessa capacidade representativa é que Kandinsky comenta em seguida.
Uma
obra de arte possui uma capacidade de agregar referências e conseqüentemente
despertar sentimentos dos mais variados, precisamente no interior do ser
humano. (W. Kandinsky, 1996. Pág.110)
O
interior da coletividade humana é basicamente onde será a missão do artista
plástico, relacionada aparentemente com a recuperação das cores para que elas
voltem a integrar o universo e serem usadas corretamente e positivamente a
favor do estimulo, da imaginação humana. Mas seu papel vai além de simples
arrecadamento e organização, afinal no contexto apresentado pelo mundo do
abstrato, as cores são partes que simbolizam a consciência e tudo que dela
podem derivar, influenciando todo o comportamento coletivo do homem, com o meio
em que vive sua própria realidade. “(...)
Aquilo que se leva e se faz ocorrer na consciência é a própria existência. Esta
é a função insubstituível da arte”. (Lilian Ried Miller Barros apud:
Argan,2008. Pág.160)
Em posse dessa conveniência, ele reutilizará
sua representabilidade não só convencionalmente, mas podendo agregar a capacidade
de englobar todo o contexto incluindo e ratificando a importância da própria
escola fundadora do design na história, a Bauhuas, tudo isso em função da
realização da futura obra que será criada a partir desse ponto, uma
responsabilidade que o próprio pintor deverá tomar para si durante toda a
concepção da mesma, e ainda levar consigo e guardada as devidas proporções os
valores da antiga escola fundadora do design gráfico. “O objetivo final – ainda
que distante – da Bauhaus é a obra de arte unificada”.( J. Abbott Miller
apud:Gropius, 2008.pag.8)
Kandinsky
fornece em seu primeiro livro – Do Espiritual na arte (1912) – explicações e
fundamentos teóricos para a nova arte não figurativa. (...) O tom messiânico do
seu livro e a natureza radical de suas pinturas contribuíram para a formulação
de que Kandinsky era nada menos que um representante de um novo idealismo.
(Lilian Ried Miller Barros, 2008. pag.159)
“A arte fortalece as
forças, e as capacidades internas.” (W. Kandinsky, 1996. pág.111.) Em outras
palavras, seu papel nessa realidade enaltece suas qualidades e corrobora na
funcionalidade da direção de suas ações como um todo. Quando ele recuperar
todas as cores, terá condições na etapa final de alimentar sua imaginação com o
que recuperou e exercer sua atividade de pintor criando uma obra onde possa
enaltecer o espírito humano, tão corrompido pelas ações impensadas do ser
humano durante muito tempo e, uma obra que desperte os verdadeiros valores da
vida humana, e inicie um novo rumo para que uma reflexão coletiva possa fazer
surgir uma nova consciência.
Todas
essas influências, sensoriais e místicas, reforçavam a vontade de Kandinsky de
associar as linguagens das diferentes artes, a fim de libertar o espírito
humano para um renascimento social. (Lilian Ried Miller Barros, 2008. pag.166)
Para
Kandinsky, a obra de arte autêntica é aquela em que o artista consegue
expressar sua necessidade interior usando como instrumento a harmonização entre
as cores e formas. Uma vez atingida essa meta, a composição estabelece uma
verdadeira ressonância com a alma humana. (Lilian Ried Miller Barros 2008, pag.207)
Mais
tarde, a abstração acaba unindo-se a idéia do expressionismo. Segundo
Rose-Carol, essa união ocorreu em 1912, quando o antinaturalismo se associou a
idéia de antipositivismo e viu-se na arte abstrata a criação da visão de um
mundo melhor, revelando-se símbolo visual do socialismo utópico. (Lilian Ried
Miller Barros, 2008. pág.158)
Após
as definições da natureza da mensagem e de quais caminhos o roteiro iria
trilhar, o projeto precisava da geração das primeiras bases de imagens onde
seria contada a história graficamente.
Antes de ilustrar as páginas da história, o
pesquisador manteve a aprendizagem básica lecionada por qualquer meio de
ilustração, nos ensinamentos para a construção de qualquer tipo de ilustração,
o processo inicial que é sempre constituído de uma base, uma espécie de
esqueleto constituído de rabiscos, traços, linhas e inadvertidamente se
baseando em formas geométricas para em seguida ser, lapidada e finalmente
arte-finalizada.
Essa
etapa mostrou-se bastante oportuna quando observando cada situação em que se
encontrava o personagem, me permitiu inserir as simbologias existentes nas
formas geométricas, já que ia utilizá-las para desenvolver as ilustrações, além
da composição das páginas, pude enxergar o enorme potencial de valorização das
teorias da Bauhaus e de Kandinsky, se acerca de seus conceitos sobre as formas
primárias, as usasse em todas as etapas e elementos para o desenvolvimento
gráfico do projeto.
Usando
o potencial representativo reconhecido pelas tradicionais áreas do design, e
incluindo ainda a psicologia das formas nos vários momentos de cada passagem da
história encontradas pelos personagens, ainda com o acréscimo da psicologia das
cores em várias situações encontradas na mesma e que norteiam todo o roteiro,
só reforça ainda mais as bases acadêmicas fundamentadas pelo design gráfico.
A
repetição desse trio de formas básicas e cores primárias na obra de professores
e estudantes da Bauhaus evidenciam o interesse da escola na abstração e seu
foco nos aspectos da visualidade que poderiam ser descritos como elementares,
irredutíveis, essenciais, fundadores e originais. (J.Abbott Miller, 2008. pág.8)
Para Klee, Kandinsky e
Itten, as três formas serviam como uma escrita com a qual a pré-história do
visível podia ser analisada, teorizada e representada. ( J. Abbott Miller,
2008. pág.25)
Especificamente para Kandinsky, as três formas
básicas se apresentavam em toda a forma de concepção que origina qualquer
projeto gráfico. Para ele há uma ligação inerente entre as três, uma correlação
que também constitui o espaço, o universo, está intrinsecamente ligado,
ordenado e favorável a existência dessas formas, são elas que se inserem em
toda e qualquer objeto gráfico, e são delas as derivações para as compostas.
Em
1923 Kandinsky propôs estabelecer uma correspondência universal entre as três
formas elementares e as três cores primárias: o triângulo, dinâmico, seria
inerentemente amarelo, o quadrado, estático, intrinsecamente vermelho, e o
círculo, com sua serenidade, naturalmente azul. Hoje a equação perdeu seu apelo
universal e passou a funcionar como um signo flutuante capaz de assumir
diversos significados – inclusive o de evocar a própria memória da Bauhaus.(
Ellen Lupton e J. Abbott Miller, 2008. pag.6)
Antes de se chegar a essas três formas e à definição
das mesmas, para tracejar qualquer linha que desenvolvesse outros objetos, e
constituísse uma construção de cunho geográfico, existe um item, um elemento
que representa a ação inicial, o momento que sintetiza a origem incluindo as
três formas básicas, uma mini circunferência preenchida, nomeado como ponto,
também citado como o marco zero, onde tudo começa, onde a composição das formas
é delineada e conseqüentemente os elementos que constituem a dimensão do
objeto, assim como o próprio Kandinsky afirma.
O
Ponto geométrico – interseção invisível de três planos = 0 = (zero) = (começo –
origem).O ponto místico = segredo maçônico, isto é, o grande no infinitesimal =
divindade= todo poderoso no menor de todos os símbolos = elemento original, de
que decorrem todos os outros elementos.Três propriedades que o definem e que
são variáveis: a dimensão,a forma e a cor.(W.Kandinsky, 1996. pág.61)
O ponto está representado tanto no inicio da
aventura quanto no final, seja simbolicamente ou literalmente, e ainda assim
estaria no recomeço para a segunda parte, em sumo, ele norteia todo o projeto,
a circunstância de seu deslocamento também, conhecida como linha, mas em um
momento decisivo ele assumiu sua real e específica alcunha de inicio, de
recomeço, o zero, onde sua capacidade é demonstrada em favor do beneficio da
missão de Kandinsky, guiando-o até onde ele precisa ir como uma bússola, Oliver
indica e ele surge e devidamente vibrado abre o caminho ao qual surge uma
“fenda” uma espécie de porta, e a partir daí a entrada para o desconhecido é
mostrada, as possibilidades estão agora lhe apresentando um trajeto, uma linha
que só o artista pode seguir, no caso, ouvir sua frequência até a outra
extremidade enquanto perpassa por todas as sete cores, até o outro ponto, então
o começo da aventura tem oficialmente inicio, e tudo isso com o auxilio de
itens que o próprio pintor sempre usou e frisou em suas obras e reconhecendo-os
como indispensáveis, e de acordo com algumas de suas citações:
(...)
Qualquer ponto tem grande poder de atração visual ao olho, exista ele
naturalmente ou tenha sido colocado pelo homem em resposta a um objetivo
qualquer. ( Donis A. Dondis apud:W. Kandinsky,
2003.pág.53)
(...)
Esse interesse no “ponto zero”, no primeiro momento é evidente no livro Ponto e
linha sobre plano, de Wassily Kandinsky: ”Precisamos desde já distinguir os
elementos básicos de outros, ou seja, elementos sem os quais uma obra [...] não
poderia sequer existir.”
Nas
artes visuais, a linha tem, por sua própria natureza, uma enorme energia. Nunca
é estática; é o elemento visual inquieto e inquiridor do esboço. (...) Contudo,
apesar de sua flexibilidade e liberdade, a linha não é vaga: é decisiva, tem propósito e direção, vai para
algum lugar,faz algo de definitivo.(...)A linha é o meio indispensável para
tornar visível o que ainda não pode ser visto, por existir apenas na
imaginação.”(
Donis
A. Dondis ,2003.pág.56)
Esse
possível elo na imaginação da mente humana entre as formas e as cores
possibilita ainda mais conceituações sobre ambos e ainda relacionando com o
ritmo e, por conseguinte a música, que mesmo desprovidos em menor e maior grau
das faculdades visuais se torna a única alternativa que resta para os
personagens buscarem soluções, se utilizando inclusive através de seus
significados, tudo interligando numa resultante favorável aos personagens e também
ao ritmo da história.
Portanto
dentro desse acontecimento a teoria de Ferdinand de Saussure propõe exatamente
a relação dos sons e dos materiais.
(...) De acordo com a
teoria do signo verbal proposta pelo lingüista Ferdinand de Saussure na virada
do século XX, a linguagem consiste em dois planos distintos, porém
inseparáveis: sons e conceitos, ou significantes e significados. Para que a
massa caótica e indiferenciada dos sons potenciais possa se tornar o material
fonético da linguagem, ela deve articular-se em unidades distintas e repetíveis;
da mesma forma, o plano do pensamento precisa ser decomposto em conceitos
distintos antes de poder ligar-se a sons
materiais.(...)( Ellen lupton e J.Abbott Miller, 2008. pág.31)
Na
segunda parte da aventura quando Kandinsky estiver em cada cor, individualmente
e com seu respectivo elemento impar, ele será impulsionado a se privar da visão
e depender somente do som tanto da voz
de Oliver que será sua consciência, quanto do produzido pela própria cor, e conhecendo historicamente sua
experiência com a sinestesia, numa ópera de Richard Wagner (1813 – 1883),onde
ele diz ter visto cores durante a apresentação, adequou-se funcionalmente no
processo com os sinestetas.
Os pacientes sinestésicos, deverão ser
encontrados para a partir daí juntos gerarem alguma sonoridade que faça o
sinesteta lembrar-se de algo bom, algo que o faça recordar de memórias
marcantes em sua vida. A freqüência precisa ser usada corretamente, em forma de
música e sob os conselhos de Oliver, Kandinsky deverá implantar algo que estimule
o despertar de sua visão, mesmo que só por um nível, para que juntos possam
afetar toda a dimensão de uma determinada cor, e ele possa resgatá-la, afetando
o que estava pondo todos os seres humanos dessa dimensão de certa maneira como
escravos e invertendo para um som diferente do que estavam influenciando, e
dessa forma possam gradativamente restabelecer o equilíbrio antes existente com
a união de todas as cores. “(...) O equilíbrio é, então, a referência visual
mais forte e firme do homem, sua base consciente e inconsciente para fazer
avaliações visuais. (...)”(Donis A. Dondis, 2003.pág.32)
Esse
equilíbrio inerente a todos os seres humanos também estará sendo exemplificado
graficamente em alguns elementos das páginas da graphic Novel, e de acordo com Donis
A. Dondis.
A
palavra “gráfico” refere-se tanto à escrita quanto ao desenho – meios
diferentes que usam ferramentas similares.Também refere-se a uma convenção
utilizada pelas ciências – o gráfico - ,que representa uma lista numérica como
uma linha continua desenhada em um espaço subdividido: o padrão formado pelo
gráfico é percebido como uma Gestalt – uma forma ou imagem simples. (Donis
A. Dondis,2003. pág.26)
A
gestalt está representada em várias fundamentações que decorrem durante toda
narrativa visual, e essas formas se caracterizam implantadas coordenadamente no
processo de organização visual, e sempre seguindo os parâmetros
pré-estabelecidos e seguindo o contexto de cada página, além do direcionamento
de cada diálogo dos personagens.
Preocupado
com a representabilidade dos elementos compositivos em cada página, o
pesquisador buscou utilizar a melhor maneira de favorecer a visão do leitor nas
percepções gráficas das páginas. O projeto estrutura tudo sempre com o
referencial da grade, gerada pelo módulo de cálculo, e sobre o eixo central das
mesmas usadas matematicamente como base no espaço das formas geométricas,
constituindo a geometrização necessária a qualquer projeto gráfico, para a disposição
coerente e o equilíbrio dos elementos. “Assim, o constructo horizontal-vertical
constitui a relação básica do homem com seu meio ambiente. Mas além do
equilíbrio simples e estático (...) “( Donis A. Dondis, 2003 pág.32),Donis
A.Dondis, ainda ratifica.