É com esse principio que o projeto será conduzido, uma metodologia
que mantenha os fundamentos do design na diagramação da arte seqüencial nas
páginas da graphic novel. Dessa forma atraindo o público alvo e compreendendo
como eles interagem com publicações gráficas, e as referências acadêmicas
existentes, reforçando ainda mais o interesse nessa experiência.
Construção da História
Ainda na complementação do roteiro, o projeto direciona sua base
temática no gênero da ficção, mas pelas circunstâncias de seu desenvolvimento,
é definido como metaficção. Segundo Patrícia Waugh,
Metafiction is a term given to fictional
writing which self-consciously and systematically draw attention to its status
as an artefact in order to pose questions about the relationship between
fiction and reality. In providing a critique of their own methods of
construction, such writings not only examine the fundamental structures of
narrative fiction, they also explore the possible fictionality of the world
outside the literary fictional text (WAUGH, 1984, p. 02)[1]*
Assim, pode-se criar essa nova realidade, disfarçada e fortalecida
na sua intenção acadêmica, usando, em toda sua concepção, os conceitos e
teorias de um dos principais professores da Bauhaus na execução da aventura,
Wasslly Kandinsky e abrindo espaço para agregar mais referências de distintas
áreas que se relacionam em determinadas situações que constituem uma das
principais ferramentas que alicerçam toda a base do desenvolvimento dos
personagens e da história em geral.
Tomando conhecimento que “a história da ciência nos quadrinhos
está intimamente relacionada à história da ficção - cientifica nos quadrinhos”
(DANTON, 2005, pag.9), é possível
direcionar as relações da narrativa, ainda como metaficção, ao encontro
do outro personagem principal, o cientista e pesquisador (entre outros títulos)
Oliver Sacks como figura de contraste frente às angustias múltiplas
compartilhadas com Kandinsky, baseadas em fatores físicos, mentais e até
relacionados ao entendimento do mundo material, onde
a teoria da cor, a simbologia das formas e seu grande poder de
representabilidade, além do ritmo nas composições, que criam os questionamentos
que direcionam os protagonistas. Esses elementos, que separadamente já são de
grande utilidade, mas, no caso do projeto, se bem unificados e atuantes em
harmonia, podem elevar a quantidade de referências significativamente para o
que virá a ser construído e apresentado fundamentalmente, sempre em favor da
história.
Os diversos elementos materiais, e suas definições ditas
imateriais, articulam e criam uma base do que é considerado e apresentado como
item gráfico, e representado e sendo debatido entre os personagens ainda que
conceitualmente, na resolução das questões que os afligem, sendo o fio condutor
de toda a trama e da relação entre os protagonistas. De acordo com Lilian R. M.
Barros.
(...) a interpretação simbólica de Kandinsky,
bastante inspirada em Goethe, abre diversas frentes para associações entre
cores, sons, movimentos e estados de espírito, contribuindo para a arte, para a
criatividade e para o ensino. (Lilian Ried Miller Barros, 2008. pág.178)
Como
a arte em si pode ser representada de tantas formas, não seria difícil
correlacionar possíveis interpretações usando soluções não só de maneira
simbólica, mas também de acordo com a situação no contexto em que está sendo
representado, no caso, o que Kandinsky se situa nessa realidade abstrata, a
segunda realidade, como o arquiteto do mundo do sensível, entendem como
possíveis soluções, usando cores, formas e som, como caminhos a serem trilhados
e numa espécie de sentido rítmico indiretamente sugerido.
Já
em nossa realidade, a busca se transforma numa necessidade do entendimento
musical dos mecanismos que dele se podem manipular resultando na sua ligação
com o mundo cromático, e do que pode ser extraído e convertido num meio
tradicional e comum ao homem, ou seja, concretamente como uma forma de
comunicação, Lilian ressalta Kandinsky acerca dessa observação.
A crença do
pintor numa correspondência sensorial por meio das transferências sinestésicas
revela, segundo Wingler, a necessidade de Kandinsky de encontrar “regras que
pudessem ser aplicadas a serviço da comunicação”. Nesse sentido, o
reconhecimento da sinestesia pela comunidade cientifica teria sido muito
oportuno à confirmação de suas intuições a respeito das afinidades entre sons e
cores. (Lilian
Ried Miller Barros, 2008.
pág.166)
Essa
relação é que será o principal motor que irá conduzir o personagem numa aventura
arriscada e inerentemente altruísta, envolvendo a busca por sete cores e
pessoas de percepção diferenciada, graças a dons impares ainda estão livres da
influência negativa em que a grande maioria se encontra, e que vivem em cada
uma das dimensões da cor, que agora residem separadamente.
Representados
pelos pacientes de Oliver, essas pessoas carregam em si doenças de espécies
raras e fortes, mas também em contrapartida o dom de interpretar o som e a cor
de maneira impar, única, e essa condição diferenciada é que os indicará como
elementos indispensáveis para o sucesso da missão, definida por Oliver e
Kandinsky e o que será utilizado para a busca da sintonia.
Já
que a visão foi afetada de diversas formas o outro sentido tão importante
quanto, terá o papel de ser a alternativa viável para encontrar a freqüência
sonora que agirá como uma anomalia e tentará como uma espécie de vírus, se
espalhar em ondas sonoras que gradualmente afetem a influência negativa em que
todos os seres humanos estão condicionados.
Esse domínio individual pela cor das dimensões
é contra as leis naturais do espaço e do abstrato, essa situação errada poderá
alterar o que é correto se durar mais tempo. É preciso uni-lás novamente para a
condição da consciência humana coletiva, destruindo as sete dimensões de cores
distintas que surgiram após os eventos pecaminosos cronológicos da humanidade
voltando ao seu ponto de origem, e fazer as engrenagens da máquina universal,
regressar ao seu exercício habitual e organizar o eixo, unindo as cores para trabalharem
numa mesma dimensão. “Dimensão – a
cor domina sempre.”( W.Kandinsky ,1996.pag.52)
Com
a ajuda dessa ação e no processo de união das cores perdidas, Kandinsky
exercerá sua função e ele estará unindo, em etapas, itens necessários ao
desenvolvimento de uma única obra, abstrata que será o resultante final após
todo o recolhimento das mesmas, “Arte
abstrata – idéia: emprego dos elementos puros da pintura segundo uma
necessidade interior.” (W. Kandinsky,1996. pag.12)
É
essa necessidade que o levará numa espécie de ação rítmica que consistirá num
resultante projeto gráfico que se assemelhará a uma pintura e consistirá na
representação do que ali por diante será o símbolo do otimismo em forma de
arte, “Ritmo – Relação absoluta entre tensões, semelhante em todas as artes:
pintura, música, dança escultura, poesia, arquitetura. “(W. Kandinsky, 1996. pag.120)
construído numa linguagem artística composta de maneira única, e citando
Kandinsky através de Lilian R.M. Barros:
Todas
as influências, sensoriais e místicas, reforçavam a vontade de Kandinsky de
associar as linguagens das diferentes artes, a fim de libertar o espírito
humano para um renascimento social. (...)(Lilian Ried Miller Barros, 2008.pág.166)
E
esse intencional renascimento social está embutido na aventura e através de etapas,
especificamente uma em que se conhece a situação em que os personagens se
encontram e o porquê de determinado momento, e a outra constituirá no processo
de encontrar resoluções através de uma conversação entre os personagens onde
apresentam seus pontos de vista e na tentativa de encontrar um salvamento, que
represente um resgate dos valores sociais humanos, a escolha dos títulos de
cada capítulo seguiu uma linha onde traçasse um paralelo entre as definições de
Kandinsky sobre o processo gradativo de desenvolvimento de suas obras, e se
enquadrasse com os pontos de vista do pintor, no contexto em que posiciona a
situação dos personagens na história, intitulando-as como se fossem composições
musicais, segundo Lilian Ried.
Com
relação às suas próprias obras, o pintor classifica-as em três gêneros
distintos: Impressões. (...) Improvisações: expressões de sensações ou
pensamentos do artista, provenientes de súbitas intuições, que podiam ser
inconscientes; tratava-se para Kandinsky de impressões da natureza interior.
Composições:
semelhantes à concepção das improvisações, só que elaboradas lentamente, desde
os primeiros esboços, por meio de várias reproduções e análises, até atingirem
uma composição ideal. Para Kandisky, mesmo sob a diretriz da sua intuição de
artista, a elaboração de uma composição envolvia também a inteligência, o
consciente, a intenção lúcida e a finalidade precisa. ( Lilian Ried
Miller Barros,2008.pág.167)
O roteiro usa metaforicamente essa intenção
composicional estruturada em fatos e teorias reais, tanto para a finalidade da
futura missão de Kandinsky quanto para a representabilidade dos momentos em que
se utilizava de longos debates acerca dos temas abordados, dessa maneira mais
uma vez dará maior credibilidade ao que já faz parte da História.
Na
dimensão onde os personagens existem e executam suas devidas funções, há
elementos que corroboram para a ligação com o mundo externo, sendo que o
interno não se sustenta sem o externo, um precisa da condução do outro para
coexistir sem falhas e exercer sua função corretamente. Essa realidade se
sustenta na simbologia das formas e cores, e da diversidade cultural existente
na sociedade humana.
[1] *”Metaficção é um termo dado para a escrita de ficção que
intencional e sistematicamente chama atenção para seu status de artefato a fim
de questionar a relação entre a literatura de ficção e a realidade. Ao
produzir uma crítica dos seus próprios métodos de construção, tal escrita
não examina apenas estruturas fundamentais da narrativa de ficção, como
explora também a possível ficcionalidade do mundo exterior ao texto
literário de ficção.” (Tradução de
Janine Resende Rocha em METAFICÇÃO NOS ROMANCES DE MACHADO DE ASSIS)[1]

0 comentários:
Postar um comentário