terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Texto final da fundamentação do TGI 1


É com esse principio que o projeto será conduzido, uma metodologia que mantenha os fundamentos do design na diagramação da arte seqüencial nas páginas da graphic novel. Dessa forma atraindo o público alvo e compreendendo como eles interagem com publicações gráficas, e as referências acadêmicas existentes, reforçando ainda mais o interesse nessa experiência.




Construção da História

Ainda na complementação do roteiro, o projeto direciona sua base temática no gênero da ficção, mas pelas circunstâncias de seu desenvolvimento, é definido como metaficção. Segundo Patrícia Waugh,

Metafiction is a term given to fictional writing which self-consciously and systematically draw attention to its status as an artefact in order to pose questions about the relationship between fiction and reality. In providing a critique of their own methods of construction, such writings not only examine the fundamental structures of narrative fiction, they also explore the possible fictionality of the world outside the literary fictional text (WAUGH, 1984, p. 02)[1]*


Assim, pode-se criar essa nova realidade, disfarçada e fortalecida na sua intenção acadêmica, usando, em toda sua concepção, os conceitos e teorias de um dos principais professores da Bauhaus na execução da aventura, Wasslly Kandinsky e abrindo espaço para agregar mais referências de distintas áreas que se relacionam em determinadas situações que constituem uma das principais ferramentas que alicerçam toda a base do desenvolvimento dos personagens e da história em geral.

Tomando conhecimento que “a história da ciência nos quadrinhos está intimamente relacionada à história da ficção - cientifica nos quadrinhos” (DANTON, 2005, pag.9), é possível  direcionar as relações da narrativa, ainda como metaficção, ao encontro do outro personagem principal, o cientista e pesquisador (entre outros títulos) Oliver Sacks como figura de contraste frente às angustias múltiplas compartilhadas com Kandinsky, baseadas em fatores físicos, mentais e até relacionados ao entendimento do mundo material, onde a teoria da cor, a simbologia das formas e seu grande poder de representabilidade, além do ritmo nas composições, que criam os questionamentos que direcionam os protagonistas. Esses elementos, que separadamente já são de grande utilidade, mas, no caso do projeto, se bem unificados e atuantes em harmonia, podem elevar a quantidade de referências significativamente para o que virá a ser construído e apresentado fundamentalmente, sempre em favor da história.

Os diversos elementos materiais, e suas definições ditas imateriais, articulam e criam uma base do que é considerado e apresentado como item gráfico, e representado e sendo debatido entre os personagens ainda que conceitualmente, na resolução das questões que os afligem, sendo o fio condutor de toda a trama e da relação entre os protagonistas. De acordo com Lilian R. M. Barros.

 (...) a interpretação simbólica de Kandinsky, bastante inspirada em Goethe, abre diversas frentes para associações entre cores, sons, movimentos e estados de espírito, contribuindo para a arte, para a criatividade e para o ensino. (Lilian Ried Miller Barros, 2008. pág.178)


Como a arte em si pode ser representada de tantas formas, não seria difícil correlacionar possíveis interpretações usando soluções não só de maneira simbólica, mas também de acordo com a situação no contexto em que está sendo representado, no caso, o que Kandinsky se situa nessa realidade abstrata, a segunda realidade, como o arquiteto do mundo do sensível, entendem como possíveis soluções, usando cores, formas e som, como caminhos a serem trilhados e numa espécie de sentido rítmico indiretamente sugerido.

Já em nossa realidade, a busca se transforma numa necessidade do entendimento musical dos mecanismos que dele se podem manipular resultando na sua ligação com o mundo cromático, e do que pode ser extraído e convertido num meio tradicional e comum ao homem, ou seja, concretamente como uma forma de comunicação, Lilian ressalta Kandinsky acerca dessa observação.

A crença do pintor numa correspondência sensorial por meio das transferências sinestésicas revela, segundo Wingler, a necessidade de Kandinsky de encontrar “regras que pudessem ser aplicadas a serviço da comunicação”. Nesse sentido, o reconhecimento da sinestesia pela comunidade cientifica teria sido muito oportuno à confirmação de suas intuições a respeito das afinidades entre sons e cores. (Lilian Ried Miller Barros, 2008. pág.166)


Essa relação é que será o principal motor que irá conduzir o personagem numa aventura arriscada e inerentemente altruísta, envolvendo a busca por sete cores e pessoas de percepção diferenciada, graças a dons impares ainda estão livres da influência negativa em que a grande maioria se encontra, e que vivem em cada uma das dimensões da cor, que agora residem separadamente.

Representados pelos pacientes de Oliver, essas pessoas carregam em si doenças de espécies raras e fortes, mas também em contrapartida o dom de interpretar o som e a cor de maneira impar, única, e essa condição diferenciada é que os indicará como elementos indispensáveis para o sucesso da missão, definida por Oliver e Kandinsky e o que será utilizado para a busca da sintonia.

Já que a visão foi afetada de diversas formas o outro sentido tão importante quanto, terá o papel de ser a alternativa viável para encontrar a freqüência sonora que agirá como uma anomalia e tentará como uma espécie de vírus, se espalhar em ondas sonoras que gradualmente afetem a influência negativa em que todos os seres humanos estão condicionados.

 Esse domínio individual pela cor das dimensões é contra as leis naturais do espaço e do abstrato, essa situação errada poderá alterar o que é correto se durar mais tempo. É preciso uni-lás novamente para a condição da consciência humana coletiva, destruindo as sete dimensões de cores distintas que surgiram após os eventos pecaminosos cronológicos da humanidade voltando ao seu ponto de origem, e fazer as engrenagens da máquina universal, regressar ao seu exercício habitual e organizar o eixo, unindo as cores para trabalharem numa mesma dimensão. “Dimensão – a cor domina sempre.”( W.Kandinsky ,1996.pag.52)

Com a ajuda dessa ação e no processo de união das cores perdidas, Kandinsky exercerá sua função e ele estará unindo, em etapas, itens necessários ao desenvolvimento de uma única obra, abstrata que será o resultante final após todo o recolhimento das mesmas, “Arte abstrata – idéia: emprego dos elementos puros da pintura segundo uma necessidade interior.” (W. Kandinsky,1996. pag.12)

É essa necessidade que o levará numa espécie de ação rítmica que consistirá num resultante projeto gráfico que se assemelhará a uma pintura e consistirá na representação do que ali por diante será o símbolo do otimismo em forma de arte, “Ritmo – Relação absoluta entre tensões, semelhante em todas as artes: pintura, música, dança escultura, poesia, arquitetura. “(W. Kandinsky, 1996. pag.120) construído numa linguagem artística composta de maneira única, e citando Kandinsky através de Lilian R.M. Barros:

Todas as influências, sensoriais e místicas, reforçavam a vontade de Kandinsky de associar as linguagens das diferentes artes, a fim de libertar o espírito humano para um renascimento social. (...)(Lilian Ried Miller Barros, 2008.pág.166)


E esse intencional renascimento social está embutido na aventura e através de etapas, especificamente uma em que se conhece a situação em que os personagens se encontram e o porquê de determinado momento, e a outra constituirá no processo de encontrar resoluções através de uma conversação entre os personagens onde apresentam seus pontos de vista e na tentativa de encontrar um salvamento, que represente um resgate dos valores sociais humanos, a escolha dos títulos de cada capítulo seguiu uma linha onde traçasse um paralelo entre as definições de Kandinsky sobre o processo gradativo de desenvolvimento de suas obras, e se enquadrasse com os pontos de vista do pintor, no contexto em que posiciona a situação dos personagens na história, intitulando-as como se fossem composições musicais, segundo Lilian Ried.

Com relação às suas próprias obras, o pintor classifica-as em três gêneros distintos: Impressões. (...) Improvisações: expressões de sensações ou pensamentos do artista, provenientes de súbitas intuições, que podiam ser inconscientes; tratava-se para Kandinsky de impressões da natureza interior.
Composições: semelhantes à concepção das improvisações, só que elaboradas lentamente, desde os primeiros esboços, por meio de várias reproduções e análises, até atingirem uma composição ideal. Para Kandisky, mesmo sob a diretriz da sua intuição de artista, a elaboração de uma composição envolvia também a inteligência, o consciente, a intenção lúcida e a finalidade precisa. ( Lilian Ried Miller Barros,2008.pág.167)


 O roteiro usa metaforicamente essa intenção composicional estruturada em fatos e teorias reais, tanto para a finalidade da futura missão de Kandinsky quanto para a representabilidade dos momentos em que se utilizava de longos debates acerca dos temas abordados, dessa maneira mais uma vez dará maior credibilidade ao que já faz parte da História.

Na dimensão onde os personagens existem e executam suas devidas funções, há elementos que corroboram para a ligação com o mundo externo, sendo que o interno não se sustenta sem o externo, um precisa da condução do outro para coexistir sem falhas e exercer sua função corretamente. Essa realidade se sustenta na simbologia das formas e cores, e da diversidade cultural existente na sociedade humana.



[1] *”Metaficção é um termo dado para a escrita de ficção que intencional e sistematicamente chama atenção para seu status de artefato a fim de questionar a relação entre a literatura de ficção e a realidade. Ao produzir uma crítica dos seus próprios métodos de construção, tal escrita não examina apenas estruturas fundamentais da narrativa de ficção, como explora também a possível ficcionalidade do mundo exterior ao texto literário de ficção.” (Tradução de Janine Resende Rocha em METAFICÇÃO NOS ROMANCES DE MACHADO DE ASSIS)[1]

• • •